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Economia da felicidade, PIB vs FIB

Nem sempre o dinheiro traz felicidade

O único português doutorado em economia da felicidade explica à VISÃO de que forma se pode relacionar o grau de satisfação de uma sociedade com o seu nível de riqueza.
Entrevista a Gabriel Leite Mota (investigador académico)

Quando um pobre compra o seu primeiro automóvel com o dinheiro que juntou sente um acréscimo de felicidade que não se compara com a do rico que troca de carro para ter o último modelo - a alegria do pobre será muito maior. Esta pode ser uma metáfora que explica, em parte, os níveis de satisfação das nações. Os países ricos têm populações mais felizes que os países pobres, mas esse é um bem-estar que tende a estabilizar. Disto e de muito mais nos falou Gabriel Leite Mota, 32 anos, licenciado em economia pela Universidade do Porto, e que, em 2010, defendeu uma tese de doutoramento sobre a economia da felicidade. Nesta nova área de estudo, que ganhou força a partir de meados dos anos 90, questiona-se a «obsessão» com o Produto Interno Bruto (PIB). No fim de contas, «este caminho está a levar-nos para onde?», pergunta o investigador que atualmente está ligado ao Núcleo de Investigação em Micro Economia Aplicada, da Universidade do Minho, onde é bolseiro a preparar o pós-doutoramento. A resposta vem já a seguir.

Afinal o dinheiro traz ou não felicidade?

Essa é uma pergunta recorrente. Uns dizem que não, outros dizem que sim, outros dizem que não traz, mas ajuda. No que respeita ao PIB per capita, o que se vê nos dados é uma relação crescente, ou seja, quanto mais ricos são os países mais felizes tendem a ser as pessoas. Mas isto não é linear, pois não temos o mesmo acréscimo de bem-estar à medida que nos tornamos mais ricos. Se somos pobres, o aumento inicial de riqueza traduz-se em grande acréscimo de bem-estar subjetivo, mas à medida que vamos ficando, enquanto nação, cada vez mais ricos, os acréscimos de bem-estar são menores. Sim, o dinheiro traz felicidade, mas depende. Tem uma intensidade diferente, consoante o ponto de riqueza em que nos encontramos.

Mas é um facto que, nos países mais ricos, as pessoas são mais felizes.

Sim, mas cada vez menos. Há países mais ricos com pessoas menos felizes do que em países mais pobres. A Colômbia é mais feliz do que o Japão, e o Japão é dos países mais ricos do mundo. Mas, aí, as pessoas morrem literalmente a trabalhar. O crescimento económico tem impactos positivos, que se traduzem na melhoria do acesso aos bens de consumo, como na melhoria das infraestruturas, do sistema de ensino, da saúde, da justiça, mas isso é mais evidente quando os países são pobres e estão a crescer. Se já somos remediados a caminhar para ricos, tem de se perguntar como é que os acréscimos de dinheiro vão ser distribuídos. A distribuição da riqueza é um fator importante: os países mais desiguais tendem a ser mais infelizes.

O que é a economia da felicidade?

É uma área de estudo dentro da própria economia, que começa por procurar correlações estatísticas entre indicadores de bem-estar subjetivos e variáveis económicas como o desemprego, a inflação, o PIB, etc. A perceção do bem-estar é-nos dada através de inquéritos em que se pergunta às pessoas quão satisfeitas estão com a vida em geral. A partir daqui pegamos nos dados reportados pelos inquiridos e, através de análises estatísticas, da econometria, tentamos perceber em que medida as variáveis económicas se correlacionam com a felicidade.

O que questiona essa área de estudo?

A economia da felicidade desafia a política económica, porque nos obriga a pensar sobre o que afinal é bom ou mau para a sociedade. E questiona, claramente, a obsessão com o PIB, com o crescimento. É uma força transformadora pelas pontes que constrói com outras áreas científicas como a neurologia, a psicologia, a sociologia, a filosofia ou a antropologia. Como dizia Abel Salazar, quem só sabe de medicina nem de medicina sabe.

Como é que a economia da felicidade pode influenciar as políticas públicas?

Por exemplo, estudos mostram que, em termos de bem-estar comum, o desemprego é muito mais nocivo do que a inflação. No entanto, o Banco Central Europeu está mais preocupado com a inflação ... Temos um conjunto de políticas e de instituições moldadas pelos políticos, mas com a ajuda economistas, que não tiveram em consideração um conjunto de realidades. Alguém me explica porque é que se convencionou que uma inflação de 2% é bom?

Convém que os preços não aumentem muito ...

Sim, mas porquê 2 por cento? O objetivo dos instrumentos de controlo de inflação não é o controlo da inflação em si, mas o bem-estar das sociedades. Se as instituições tiverem como objetivo o bem-estar das pessoas, têm de assumir também o controlo do desemprego. É das variáveis mais perturbadoras da felicidade - vai além da perda monetária, tendo a ver com o facto de o emprego ser uma dimensão da vida, que nos permite não apenas ter meios de subsistência, como desenvolver relações sociais e a nossa realização pessoal. Outros estudos focam a qualidade das instituições e dos governos e mostram que essas variáveis têm também impacto no bem-estar.

Daí o facto de a corrupção ser uma causa de infelicidade ...

Os países corruptos são mais infelizes. As pessoas têm a perceção de que o dinheiro está a ser mal gasto. Os países pobres que estão a crescer tendem a gastar o dinheiro de forma positiva para a sociedade. Depois, tudo depende do nível de corrupção ou da distribuição desigual da riqueza. Mas se somos um país mais rico, os acréscimos de riqueza só serão traduzidos em mais bem-estar se forem inteligentemente aproveitados. Porque podemos estar a sobreinvestir em consumo, mas a desinvestir em relações pessoais, em atividades de lazer, em qualidade ambiental. Do somatório pode resultar até um menor bem-estar.

Mas os valores atuais privilegiam o consumo como fonte de felicidade...

Há um fenómeno que qualquer utilização de bens materiais mostra. Ao consumirmos um bem material, seja ele qual for, adaptamo-nos rapidamente ao bem, começamos a aumentar as nossas expectativas, a comparar com os bens que os outros têm, mas isso é humano. Temos uma propensão natural para o consumo. O problema não está aí, mas no reverso da medalha. Queremos mais e consumimos mais à custa de quê? Se o acréscimo de felicidade que isso nos traz tende a estabilizar, ainda assim compensará os danos provocados, por exemplo, no ambiente? Se temos todas as necessidades básicas satisfeitas, não é necessariamente o carro novo que nos traz felicidade. Pode ser um novo amigo, a qualidade das relações laborais, o tempo livre.

Um povo feliz é mais produtivo?

Existe esse tipo de análise, onde se verifica que, sobretudo em áreas que exigem maior criatividade, o bem-estar psicológico das pessoas é determinante para o seu desempenho. É verdade que as pessoas mais felizes são mais produtivas. Mas pode haver um patamar de divergência, em que temos de decidir se queremos aumentar a felicidade ou aumentar a produção.

A promoção da felicidade pode travar o crescimento económico de um país?

Não diria assim. Podemos é ter de pensar em travar o crescimento de um país para promover a felicidade. O Butão é um caso típico. Tem um conjunto de regras de preservação natural e cultural que são contrárias ao crescimento económico. São opções. Não se pode ter tudo. Por outro lado, os cidadãos dos EUA podem perguntar: o que adianta crescermos tanto, se temos uma esperança média de vida inferior à portuguesa ou uma taxa de criminalidade das mais altas do mundo? Bom, interessa a alguns, sem dúvida. São pequenas minorias que beneficiam com o crescimento económico.

No Butão, é medida a Felicidade Interna Bruta. Até que ponto a felicidade dos cidadãos está nas mãos dos governos?

O Butão é uma monarquia em que o soberano decidiu medir um conjunto de indicadores respeitantes a muitas áreas da vida e à compilação daquilo tudo chamou Felicidade Interna Bruta. Devem os governos nos países ocidentais, democráticos, tomar conta disso? Antes de tudo, são as sociedades que têm de definir se a felicidade é uma prioridade ou não. Aceitando que é uma prioridade, os governos podem tentar calibrar as regras do jogo social, no sentido de haver maior liberdade para que os indivíduos procurem a sua felicidade.

Que regras são essas?

Estamos a falar de desenho de constituições, de desenho de instituições. Outros exemplos: regras a favor da concorrência, regras anticorrupção. Há uma falácia liberal que diz que quanto menos regras existirem mais livres são as pessoas para tomarem as suas próprias decisões. Isto é mentira. Se num Estado não houver regras, rapidamente surge um grupo de pessoas que toma conta do poder e institui as regras. Portanto, passa a ser uma ditadura. Com humanos há regras, poder e hierarquias. O que interessa é definir essas regras em democracia.

Que medidas podem ser tomadas para tornar as pessoas mais felizes?

Promover a participação cívica e política, com mais referendos, maior descentralização do poder; melhoria geral da qualidade das instituições, sejam de saúde, sejam de justiça ou escolares. No fundo, ajudar as pessoas a serem empreendedoras da sua própria felicidade. E promover o esclarecimento e a informação.

O que está a crise a fazer à felicidade dos portugueses?

Não posso responder diretamente, porque não há dados recolhidos a este nível. Agora, se o desemprego está a aumentar e o dinheiro está a diminuir, face ao que os estudos mostram, não é difícil concluir que estamos a ficar mais infelizes.

A perceçao de que a crise global foi causada pela ganância de uns poucos pode ser desmoralizante?

Quanto mais desregulados estiverem os mercados financeiros mais bolhas especulativas ocorrerão. A desregulamentação começou nos anos 80, com Margaret Thatcher e Ronald Reagan, e teve estas consequências. Não é tanto pela ganância - faz parte do sistema. Se as regras foram assim ditadas em democracia, quem vai a jogo não está a fazer nada de imoral. Devemos ter em consideração que determinado tipo de sistemas funcionam de determinada maneira e se queremos evitar certo tipo de consequências temos de impor algum tipo de regras.

Está provado que a democracia é o sistema que melhor promove a felicidade?

Sim, está provado que a democracia se relaciona bem com a felicidade. Os cantões suíços onde há mais participação democrática direta - através de referendos - são mais felizes. É a chamada utilidade do processo. Mesmo que o meu lado perca a eleição, fico feliz porque fui chamado a dar a minha opinião.

(in visão abril 2012)

Gráfico comparativo entre o PIB e o FIB



• A felicidade nem sempre se mede pelo dinheiro

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